Religião é um assunto que raramente é tratado aqui, no PutsGrilo!com. Não por ser um ‘tema menor’, pelo contrário, mas pelo fato de gerar discórdia, mexer com a fé e o fanatismo de muitos. Mas esses dias, um caso mexeu com o Brasil e fez muitos brasileiros repensarem sua relação com sua religião.

Estamos não somente expressando uma opinião no blog sem qualquer pretenção de ser imparcial, mas formando uma corrente – como aquelas de oração – junto a todos que repugnam a atitude da Igreja Católica.
Não bastasse o fato de uma menina pernambucana ser violentada e estuprada pelo padrastro dos 6 aos 9 anos, a Igreja Católica resolveu dar um ar medieval e inquisidor à sua postura: a excomunhão dos pais, do médico e sua equipe sem sequer levar em consideração o enorme sofrimento que passam os envolvidos. E o pior: a não excomunhão do padrastro estuprador por considerar que o ‘crime de estupro é menos grave’ – segundo o bispo pernambucano Dom José Cardoso Sobrinho.
Esse caso, na realidade, apenas reflete o regresso ao conservadorismo iniciado desde a morte do Papa João Paulo II, em 2005. Como já era de se esperar, o papa Bento XVI suprimiria todos os avanços conquistados por João Paulo II, um dos papas mais idolatrados da história da Igreja Católica, que iriam de encontro aos novos paradigmas sociais e filosóficos. Isso leva o atual papa a dirigir na contra-mão da religiosidade católica brasileira contemporânea e entrar em uma crise de confiança.
A proibição do uso da camisinha e a submissão da mulher ao marido são apenas algumas das várias normas que o povo ignora por considerar ultrapassadas, mas foram insistentemente reforçadas pela Nova Igreja Católica Velha. Outros inúmeros retrocessos não são mais aceitos pelo povo, mas o ‘novo conservadorismo católico’ insiste em dividir os fiéis em dois grupos: os fanáticos/fundamentalistas e os Cristãos ex-católicos que consideram a Igreja ultrapassada, mas se mantêm no ritual católico, grupo este que cresce em progressão geométrica, mas do qual não me incluo.

Os tempos são outros daqueles em que tais textos do Código de Direito Canônico foram escritos. ‘Quem provoca o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão por sentença dada pela própria lei‘ – diz o texto do tal Código. Isso significa que a pena incorre automaticamente a quem cometer o delito ou simplesmente, for cúmplice, como é o caso dos pais da garota.
O acontecimento dividiu opiniões em todo o mundo. O Vaticano e a CNBB apoiaram o bispo Dom José Cardoso Sobrinho, mas bispos franceses, o presidente Lula e boa parte da população brasileira apenas lamentaram a decisão do bispo – que estava amparado pela ‘lei canônica’.
A falta de sensibilidade dos membros da Igreja provocou inúmeras reações de indignação como essa que estás a ler. Isso está servindo para mostrar à Igreja Católica e ao papa Bento XVI o quão inadmissível é para o povo esse pensamento retrógrado, assim como as demais demonstrações de retrocesso. E está funcionando.
A CNBB já se pronunciou informando que ninguém havia sido excomungado e desautorizando a excomunhão da família, do médico e sua equipe. Embora alguns católicos fundamentalistas insistam em justificar a atitude o bispo, da CNBB e do Vaticano, o povo não engole.
Ricardo Kelmer, Carlos Dutra, Marcelo Cunha, Lady Kafka, Lelê Teles, Vitor Lessa e Daniel Braga são apenas alguns dos que reservaram um tempo do seu dia para dizer que não apenas baixam a cabeça para o que está escrito e discordam de uma Igreja que prefere a morte de três crianças ou profundas sequelas em vez do aborto, ou simplesmente que considera menor o estupro e o assassinato à preservação de uma vida que sofre desde criança e que poderia ter fim por ainda não ter estrutura para gerar duas crianças.
Esperamos que esse retrocesso tenha fim e a Igreja Católica acompanhe as mudanças da contemporaneidade. Quem sabe assim, pare de perder fiéis ao redor do mundo. Aguardamos respeitosamente sua opinião.
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